quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Divórcio

- Desde quando você sabe cozinhar?

- Desde o dia em que você saiu pela porta com um monte de malas na mão dizendo que era melhor surfar do que ficar aqui!

- Você vai jogar isso na minha cara pro resto da vida né?

- Espero que não, afinal, se eu for jogar isso na sua cara o resto da vida quer dizer que não vou me livrar de você nunca.

- Veja bem, eu fui embora, voltei e você me chamou para almoçar depois de assinar o divórcio, eu não te procurei.

- Eu sei disso, te chamei para almoçar porque não quero acabar um casamento em meio a desentendimentos e mágoas, vivemos momentos bons, devemos lembrar só desses momentos.

- Sim, você tem razão, não deveria então ficar me atacando com as atitudes que eu tive.

-Tudo bem, só estou um pouco nervosa, nunca pensei em passar por algo assim.

- Eu também nunca pensei, apesar de conhecer um monte de pessoas divorciadas.

- Também conheço, isso é triste, acho que todos deveriam acertar de primeira nessas coisas de amor.

- Mas nós acertamos, só não conseguimos viver juntos, isso não tem nada a ver com falta de sentimento.

- E quando existe amor mesmo não deveria existir paciência e entendimento?

- Deveria mas nem todos conseguem.

- Sem esforço não consegue mesmo.

- Esta dizendo que não me esforcei?

- Não estou acusando você só estou comentando um fato.

- Tudo bem, melhor mudar de assunto!

-Melhor mesmo!

- O cheiro está ótimo, você fez curso de culinária?

- Não, comprei um livro enorme de receitas, pesquisei dicas na internet e pronto, resolvi que deveria aprender a cozinhar!

- Você dispensou a cozinheira?

- Não, ainda preciso da ajuda dela, nem sempre tenho tempo de cozinhar e acredite, ainda preciso me concentrar muito para fazer tal coisa.

- Entendi...e as flores como estão?

- Ótimas, estão ainda mais bonitas, recebi muitos contatos de pessoas querendo um jardim igual, cheguei a montar em tamanho menor para um casamento.

- Jardinagem é legal.

- É a minha vida.

- Sempre foi?

- Sempre, claro que houve muitos dias em que as minhas flores dividiram esse título com você.

- Bonito isso, fico feliz de ouvir algo assim!

- Nada foi em vão Guilherme.

- Antes você me chamava de Gui.

- Muita coisa mudou não é?

- Ma se você me chamar de Guilherme vai parecer estar brava comigo, eu não pretendo te chamar de Elizabeth, só de Liza.

- Fico imaginando eu falando de você para outro e te chamando de Gui!

- Você não precisa falar de mim para outro, caso esse outro pergunte ai sim, você chama de Guilherme.

- Enquanto a gente discute como vamos nos chamar o meu macarrão de forno esta esfriando.

- Verdade, vamos comer logo, comida fria não é legal, esta com uma cara ótima!

- A sobremesa também.

- E qual vai ser?

- Torta holandesa!

- A minha preferida? Não sabia que ainda pensava em mim.

- Por enquanto ainda penso.

- Também penso em você, pensava até quando estava do outro lado do mundo.

- Mas não ligou!

- Se eu ouvisse sua voz eu voltaria correndo mesmo sabendo que seria inevitável outro desentendimento e o divórcio, melhor que fosse tudo resolvido a distância.

- Gosto mais de você quando estamos longe.

- Somos tão complicados!

- Vai ver, vamos ser sempre assim, vamos nos gostar com uma certa distância.

- Provável.

- Quando você volta para a Austrália?

- Mês que vem.

- Você vê cangurus?

- Vejo o tempo todo, porque você não vai me visitar?

- Não seria estranho?

- Liza, nós assinamos um papel que diz que não somos mais casados, não tem nada sobre não ter mais contato um com o outro, eu gosto de você, não consigo viver sem você, eu preciso de você nem que seja como amiga, nenhum papel vai conseguir tirar o que sinto por você, somos diferentes demais em nossas escolhas do que é viver, só isso.

- Você tem razão, também não sei viver sem você, vou te visitar nas férias!

- Vá sozinha, devo ressaltar isso!

- Sozinha?

- Não estou preparado para ver você com outro, desculpe.

- Eu não estou preparada para ser tão conhecida por outro, relaxa.

- Gostei do macarrão, já pode casar!

- Posso?

- Daqui a uns 30 anos, pode!

- Besta!

- Fiz você sorrir!

- Acredite, por mais que eu tente o contrário, você sempre consegue me fazer sorrir, em qualquer lugar de qualquer jeito.

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Texto: Luana Barreto.

2 comentários:

  1. Me matou um pouquinho mas ainda assim me fez sorrir

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  2. Parabéns adorei o texto assim como tudo nesta página.

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